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Painel: Ciência é resposta para aumentar produção agropecuária brasileira sem custo ambiental

Postado em Ciência, Tecnologia e Inovação
Participantes de webinar promovido pela Fundep e Inovabra defendem que, com mais investimentos em  pesquisa  e tecnologia, Brasil pode garantir abastecimento mundial

 

Como garantir alimentos a uma população que não para de crescer e, ao mesmo tempo, preservar o planeta, garantindo a sustentabilidade na agricultura e na pecuária? Essa foi  a provocação que abriu as discussões do webinar “Agronegócio, pesquisa e inovação no Brasil – caminhos para o futuro da produção de alimentos”, uma iniciativa da Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) – apoiadora da Universidade Federal de Minas  Gerais (UFMG) e de 35 instituições de ciência e tecnologia – e do  inovabra habitat (ambiente de coinovação do Bradesco).

O debate reuniu especialistas de diferentes esferas de atuação e pesquisa sobre o agronegócio. Participaram a diretora de Engajamento, Public Affair e Sustainability Crop Science da Bayer, Alessandra Fajardo; o diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Guy de Capdeville; o ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Alysson Paolinelli; e o professor da Escola de Medicina Veterinária da UFMG Renato Lima Santos.  

A previsão da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) de que, para combater a fome, será preciso aumentar a produção de alimentos em 70% até 2050, quando o mundo terá acrescido a sua conta, que hoje é de 7 bilhões, mais 2,3 bilhões de habitantes, foi lembrada pela moderadora do encontro, a executiva de negócios e parcerias da Fundep, Janayna Bhering, para fazer o primeiro  o questionamento: “como aumentar a produção de forma sustentável e agregando valor às commodities brasileiras?”

Para Alysson Paolinelli, o Brasil já tem a resposta dessa pergunta sendo,  por isso, a segurança alimentar do mundo. Ele lembrou que o país tem as condições climáticas, de solo e água mais favoráveis no mundo e pode expandir sua produção a partir de duas tecnologias relativamente simples: a integração de lavoura e pecuária e a irrigação.

“O Brasil não precisa de nenhum hectare a mais, nem de derrubar árvores. Com a integração de lavoura e pecuária, o agricultor utiliza o solo o ano inteiro e produz grãos, fibras, pasto, carne e madeira. Já a irrigação tem permitido a produção de até três safras no ano. Com a ampliação dessas duas tecnologias, o Brasil tem potencial para aumentar a produção necessária para abastecer o mundo”, frisou.

 

Agregar valor para garantir sustentabilidade

O diretor de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa, Guy de Capdeville, também destacou que há diversas formas de o Brasil avançar na produção de alimentos e agregar valor ao produto brasileiro, respeitando o meio ambiente. Para ele, um dos pontos-chave dessa discussão está no aproveitamento dos resíduos das cadeias transformadoras. 

“É possível criar novos materiais a partir da agricultura tradicional, como as nanofibras de celulose – com as quais é possível fazer uma série de produtos – ou, ainda, a manipueira da produção de mandioca – com a qual criamos riquezas, como açúcares”, exemplifica.

O professor da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais Renato Santos lembrou que a sustentabilidade não é apenas desejável por questões éticas, mas necessária para a nossa sobrevivência. Ele compartilhou o conceito de “saúde única”, que considera que é impossível ter saúde humana com ausência de saúde animal e equilíbrio ambiental. “O coronavírus é o maior exemplo disso”, lembrou. Uma das hipóteses para o surgimento da  covid-19 está no contato de humanos com animais silvestres infectados mantidos em cativeiro,  de maneira ilegal, em um mercado  na China.

Para o professor, o Brasil tem todas as condições de liderar esse aumento de produção sustentável de alimentos. “O Brasil tem vastas áreas conservadas, uma matriz energética limpa e precisa assumir seu papel de liderança global nessa área ambiental”, disse.

Como exemplo de como isso é possível na prática, a representante da Bayer, Alessandra Fajardo, citou as metas de sustentabilidade da organização para 2030, que são: reduzir em 30% a emissão de gases de efeito estufa por quilo de alimento produzido; reduzir em 30% o impacto ambiental do portfólio de químicos; e melhorar a vida de 100 milhões de pequenos agricultores, levando informação, produtos e tecnologia. 

“Nosso desafio é produzir o que o mundo precisa conservando o planeta. Esse é um paradoxo que só será respondido com muita pesquisa, que é o que temos feito na Bayer”, destacou.

A inovação no setor e o papel da tríplice hélice

A ciência como um caminho para o futuro da produção segura de alimentos foi outro tema colocado em debate. Janayna Bhering questionou os especialistas sobre como as atuações dos representantes da tríplice hélice (poder público, universidade e iniciativa privada) podem contribuir para criação de produtos e iniciativas eficazes no agronegócio.

O professor Renato Santos destacou que o Brasil faz um trabalho notável na produção científica das ciências agrárias. Ele destacou  que, embora o país esteja em 14º lugar  em produção científica mundial, quando consideradas apenas as áreas de agronomia e animal science, o Brasil sobe para a terceira posição. E em medicina veterinária, está em segundo lugar no ranking, perdendo apenas para os Estados Unidos.

“Por outro lado, o país perde muito em depósito de patente, que é um indicador de produção tecnológica. Precisamos avançar em tecnologia e uma das soluções para isso é o aumento do investimento em pesquisa. É necessária uma recomposição da matriz de financiamento para a ciência e a tecnologia no Brasil”, frisou.

Guy de Capdeville destacou o conceito de “inovação aberta” como um caminho para a união de esforços dos diferentes setores, uma vez que se trata de uma estratégia que inclui iniciativa privada e poder público no momento da produção da pesquisa. Segundo ele, a Embrapa vem trabalhando nesse sentido justamente para evitar o chamado “vale da morte das tecnologias”, que acontece na fase de prototipagem de uma solução em estudo. 

É o momento em que a solução já passou pela fase de hipótese e precisa ser testada no mercado, por meio de um protótipo. Trata-se de um momento muito delicado, porque é necessário encontrar um parceiro estratégico para o teste, ou  a solução não vinga.

“A inovação aberta resolve isso porque ela trabalha para para que o avanço científico seja direcionado a um determinado avanço tecnológico que queremos entregar. Fazemos parcerias com o setor público e privado e eles nos ajudam a vencer essa fase de prototipagem e esse vale da morte. Depois, é claro, o parceiro tem preferência para levar essa tecnologia para o mercado”, detalhou.

Alessandra Fajardo fez coro à fala do representante da Embrapa, dizendo que essa é justamente a estratégia da Bayer: compartilhar a produção de inovação. “E fazemos isso porque queremos mais soluções para o agricultor e, por mais que a gente invista em pesquisa internamente, não podemos fazer tudo sozinhos”, afirmou.

Para Alysson Paolinelli, o Brasil já teve a dianteira nessa corrida de inovação na área agrícola com o trabalho das diferentes instituições do setor. Ele lembrou ações como a tropicalização da soja, quando o país, por meio da ciência e tecnologia, tratou a soja proveniente da China e dos Estados Unidos e criou um produto ainda melhor. Agora, ele acredita que o País tem ainda mais condições de se destacar a partir das novas tecnologias e da geração startups.

“Temos 12 horas de sol por dia, chuva, a água doce mais disponível no mundo, uma estufa a céu aberto, quem tem isso? Mas precisamos de um salto da biotecnologia, o que já estamos fazendo. Eu acredito nos jovens brasileiros que criam soluções em uma velocidade espantosa e convoco as instituições para reunirem esforços nesse sentido. O Brasil vai produzir o alimento mais saudável e mais natural do mundo: não podemos perder essa janela de oportunidade”, concluiu.

 

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