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Pesquisa sobre impactos do fogo no Pantanal vai apresentar plano estratégico de conservação do bioma

Postado em Ciência, Tecnologia e Inovação
Pesquisa de campo no Pantanal do projeto ICMBio. Crédito: Ana Elisa de Faria Bacellar

Projeto envolve 40 pesquisadores do ICMBio e busca dar uma resposta institucional e subsídio científico para evitar a repetição da tragédia com queimadas no Pantanal

 

As cenas do Pantanal em chamas, durante a pior seca dos últimos 50 anos sofrida pelo bioma no ano passado, chocaram o mundo. Abril de 2020 foi o mês mais seco dos últimos 120 anos, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o que contribuiu para os incêndios, diminuiu os níveis dos rios e impactou a biodiversidade da região. Um ano depois, próximo ao Dia Mundial da Biodiversidade, celebrado em 22 de maio, o Governo Federal faz novos cortes no Meio Ambiente e aciona o sinal de alerta: se a sociedade civil não se organizar, as tristes imagens de animais queimados e da nuvem de fumaça sobre a paisagem pantaneira se repetirão em 2021.

Para evitar esse cenário e dar uma resposta institucional à tragédia ocorrida no Pantanal, cerca de 40 pesquisadores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) estão desenvolvendo, desde o final do ano passado, uma pesquisa para avaliar o impacto do fogo na biodiversidade do Pantanal e dar uma contribuição científica para ações de manejo e planejamento. O projeto conta com o apoio da Fundep e recursos orçamentários da Diretoria de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento de Biodiversidade do ICMBio, que aportará cerca de R$ 670 mil na pesquisa. “O desenvolvimento das atividades dos projetos de conservação do meio ambiente do ICMBio demanda uma estrutura operacional especializada. Realizamos a gestão administrativa e financeira dos projetos comprometidos com a construção de uma sociedade ambientalmente responsável”, enfatiza Simone Simões do Centro Integrado de Atendimento da Fundep.

De acordo com o coordenador do projeto, Ivan Salzo, os trabalhos de campo vão se concentrar no entorno das duas unidades de conservação federais do Pantanal: a Estação Ecológica de Taiamã e o Parque Nacional do Pantanal. As primeiras atividades começaram em janeiro, mas segundo o coordenador, a pesquisa ainda está em fase incipiente, devido às dificuldades causadas pela pandemia. A expectativa é que os primeiros levantamentos sobre os impactos do fogo em anfíbios e répteis sejam apresentados este mês.

A pesquisa atua em quatro vertentes, sendo as três primeiras focadas na avaliação dos efeitos do fogo sobre a flora e a paisagem; sobre a fauna; e sobre as comunidades que residem no Pantanal. A quarta vertente  propõe um plano estratégico de conservação do Pantanal Matogrossense. “O projeto pretende trabalhar com subsídios científicos em relação ao manejo integrado do fogo. Essa é uma área do conhecimento que, com base em diversas análises, busca manejar o fogo e não deixá-lo fugir do controle. Nossa contribuição será um aporte científico para o planejamento territorial”, explica. 

 

Impactos na biodiversidade

Além de coordenar o projeto , Ivan Salzo trabalha na Gestão da Informação sobre Biodiversidade do ICMBio. Ele destaca que, ao falar sobre a ameaça à biodiversidade do Pantanal, muitos aspectos precisam ser levados em conta. Isso porque o fogo atinge o bioma em diferentes áreas. Na fauna, por exemplo, o prejuízo é imenso, justamente por essa ser uma das regiões com maior abundância de espécies do mundo. 

Segundo o Instituto SOS Pantanal, existem no bioma pelo menos 550 espécies de aves, 124 de mamíferos, 80 de répteis, 60 de anfíbios e 260 de peixes de água doce, sendo que algumas delas estão em risco de extinção. “As queimadas não geram apenas poluição do ar. A fuligem que é depositada no solo é levada pela chuva para os rios, o que acarreta na mortandade de peixes e interfere em toda a cadeia alimentar”, destaca.

O pesquisador também chama atenção para a crescente atividade agropecuária na região, que tem alterado a paisagem natural do Pantanal. “Essa era uma área sazonalmente inundada até os anos 90, mas isso tem mudado com a exploração econômica da região, a abertura de novas áreas de pecuária e mudanças hídricas com grandes obras de drenagem para propiciar o plantio de pastagem e lavouras”, explica. 

Ele destaca que, além dos prejuízos ao meio ambiente, essa exploração ainda ameaça atividades econômicas sustentáveis da população que reside no Pantanal e depende dos recursos naturais para sobreviver. “O desenvolvimento agropecuário gera mudanças na paisagem e expulsa a população local, que vive da pesca e do extrativismo de baixo impacto”, afirma.

Para Ivan, não existe uma solução única para todos esses problemas. Ele acredita que alguns caminhos passam pelo manejo integrado do fogo, pela  criação de áreas protegidas e pela observação e cumprimento da legislação ambiental no bioma, o que requer estruturação dos órgãos que trabalham a gestão do território. “Hoje, nosso foco tem sido  minimizar os impactos das mudanças que estão ocorrendo no Pantanal”, finaliza.

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